Houve um tempo em que se concebeu a ciência como a herança generosa de abnegados em busca de uma compreensão mais profunda da realidade. Esse tempo passou. Houve um tempo em que se depositou na ciência a esperança de trazer paz, prosperidade e abundância para a humanidade. Esse tempo também passou. Hoje, não vemos mais os cientistas apenas como românticos desbravadores do real; nem a ciência apenas como portadora de esperança numa vida futura mais feliz. Pairam sobre a atividade científica as marcas indeléveis da desconfiança, da ameaça do apocalipse, do interesse ideológico inconfesso, da falibilidade. Mesmo assim, a ciência não passou. Ao contrário, atualmente ela penetra todos os aspectos das nossas vidas, roça os limites do infinitamente grande e do infinitamente pequeno, opera sub-repticiamente em nossas escolhas aparentemente mais pessoais, alcança todos os rincões do globo terrestre e vai muito além daqui, perscrutar os pontos mais remotos do universo. Tampouco há sinais de que ela encontra limites para a ampliação de sua influência em todas essas direções.
Por isso, resta perfeitamente atual a tarefa dos filósofos e filósofos que se perguntam: o que é a ciência? O que é essa atividade em nome da qual consome-se uma enormidade de recursos financeiros, mobiliza-se um exército de especialistas e auxiliares, sacrificam-se toneladas de cobaias? Que possibilidades, ameaçadoras ou promissoras, ela apresenta para a continuidade da vida tal como a conhecemos? O que ela nos diz a respeito de quem somos nós, os principais produtores e usuários de conhecimento científico? O que ela pode nos esclarecer a respeito de tudo o que vemos e mesmo daquilo que não podemos enxergar nem tocar, mas gostaríamos muito de entender?
Houve um tempo em que os filósofos consideraram-se responsáveis por elaborar a ciência-mãe de todas as ciências. Esse tempo passou. Houve um tempo em que os filósofos da ciência julgavam poder ao menos examinar o conhecimento científico e, a partir de suas análises, prescrever as normas de como a ciência deveria funcionar e mesmo decidir o que poderia ou não ser chamado propriamente de ciência. Esse tempo também passou. Restou para os filósofos e filósofas a tarefa mais modesta de refletir sobre a melhor atitude a adotar diante da atividade científica e de seus produtos tecnológicos, sem esperar guiar-se por princípios e critérios mais rigorosos do que os utilizados pelas próprias disciplinas científicas, nem almejar produzir qualquer conhecimento para além daquele já alcançado pela ciência.
Ainda que circunscrita a objetivos tão modestos, a filosofia da ciência ainda vive, seja na forma de discussões acadêmicas com alto nível de tecnicidade e especialização, seja na literatura mais popular de divulgação científica para o público leigo. Nem poderia ser diferente, dado o interesse que a ciência desperta pelos seus resultados sempre mais surpreendentes e também pelas suas próprias aplicações tecnológicas.
No que diz respeito à filosofia da ciência praticada nas universidades e centros de pesquisa, seus debates e sua agenda de questões relevantes pode ser dividido em dois grupos basicamente: as questões relativas ao conteúdo e à estrutura das teorias científicas, por um lado, e aquelas relativas à relação das teorias científicas com o mundo e com seus usuários, por outro. Ao primeiro grupo de questões costuma-se dar o nome de problemas semânticos, enquanto ao segundo grupo atribui-se o qualificativo de problemas pragmáticos, ontológicos e epistemológicos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário