Houve um tempo em que se concebeu a ciência como a herança generosa de abnegados em busca de uma compreensão mais profunda da realidade. Esse tempo passou. Houve um tempo em que se depositou na ciência a esperança de trazer paz, prosperidade e abundância para a humanidade. Esse tempo também passou. Hoje, não vemos mais os cientistas apenas como românticos desbravadores do real; nem a ciência apenas como portadora de esperança numa vida futura mais feliz. Pairam sobre a atividade científica as marcas indeléveis da desconfiança, da ameaça do apocalipse, do interesse ideológico inconfesso, da falibilidade. Mesmo assim, a ciência não passou. Ao contrário, atualmente ela penetra todos os aspectos das nossas vidas, roça os limites do infinitamente grande e do infinitamente pequeno, opera sub-repticiamente em nossas escolhas aparentemente mais pessoais, alcança todos os rincões do globo terrestre e vai muito além daqui, perscrutar os pontos mais remotos do universo. Tampouco há sinais de que ela encontra limites para a ampliação de sua influência em todas essas direções.